Autorizar é um ato de responsabilidade

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Imagine um país em que, para dirigir um carro, não fosse necessário fazer prova no DETRAN.

Bastaria se matricular em uma autoescola qualquer, assistir às aulas — boas ou péssimas — cumprir presença e, ao final, sair habilitado a dirigir um caminhão de 8 eixos em via pública.

Soa absurdo?

Pois é exatamente assim que funciona a formação médica no Brasil hoje.

Um diploma que não garante competência

No modelo atual, concluir o curso de Medicina é suficiente para exercer a profissão.

Não há, após a graduação, nenhum exame nacional obrigatório que comprove se aquele recém-formado domina o mínimo necessário para cuidar de vidas humanas.

O diploma virou, na prática, um atestado de frequência — não de competência.

E isso não seria tão grave se todas as faculdades formassem médicos bem preparados.

Mas esse definitivamente não é o caso.

A explosão de faculdades e o colapso da formação prática

Nos últimos anos, o Brasil assistiu à abertura desenfreada de cursos de Medicina.

Muitos deles surgem sem estrutura adequada, sem hospital próprio, sem campo de prática suficiente e, em alguns casos, sem nem fazer convênios sólidos para garantir treinamento clínico real.

As ações judiciais

Há situações em que decisões judiciais autorizam cursos mesmo quando os requisitos mínimos não estão plenamente atendidos. O resultado é previsível: alunos se formam sem ter atendido pacientes em volume e complexidade suficientes para desenvolver raciocínio clínico seguro

O sistema finge que ensinou.

O diploma finge que certificou.

E a população paga o preço.

ENAMED: uma boa ideia… com o objetivo errado

Diante desse cenário, o governo criou o ENAMED. À primeira vista, parece um avanço. Afinal, trata-se de uma prova nacional aplicada aos formandos em Medicina.

Mas o problema está no detalhe — e ele é enorme.

O ENAMED não é um exame de habilitação profissional.

Ele funciona apenas como um instrumento de ranqueamento.

Na prática:

• A nota serve para disputar vagas de residência médica;

• Quem vai mal não sofre nenhuma consequência profissional;

• Quem não faz a prova continua apto a trabalhar normalmente;

• O diploma, sozinho, continua autorizando o exercício da Medicina.

Ou seja: a prova existe, mas não protege o paciente.

O que a Medicina brasileira realmente precisa é de um Exame de Proficiência Médica  um filtro nacional, obrigatório, objetivo e inegociável.

Algo simples no conceito, mas poderoso no efeito:

Só pode exercer Medicina quem provar que sabe o mínimo necessário para fazê-lo com segurança.

Esse exame teria três funções centrais.

1. Proteger o paciente

Antes de qualquer debate corporativo, ideológico ou político, a prioridade deveria ser óbvia: evitar que pessoas despreparadas atendam a população.

2. Responsabilizar as faculdades

Se uma faculdade formar dezenas de alunos e nenhum passar no exame, a conclusão será inevitável: o curso é ruim. E curso ruim não deve continuar funcionando.

3. Parar de culpar apenas o aluno

O discurso atual é confortável para o Estado:

“Se o aluno não sabe, a culpa é dele.”

O próprio governo autoriza a abertura das faculdades.

Se existe um título profissional que permite atuar sobre a vida de terceiros, o Estado tem a obrigação de garantir que esse título signifique algo concreto.

Cada coisa no seu lugar

O problema central da Medicina no Brasil hoje é a confusão de funções.

Universidade serve para ensinar

Prova de Proficiência serve para autorizar o exercício profissional.

Residência médica serve para formar especialistas.

Hoje, o país mistura tudo:

• Usa uma prova como ranking,

• Trata especialização como filtro de qualidade,

• E deixa o exercício básico da profissão sem nenhum controle real.

O resultado é um sistema frouxo, incoerente e perigoso.

Medicina não é presença em sala de aula.

E muito menos um experimento social feito às custas da população mais vulnerável.

Se advogados precisam provar que sabem advogar antes de trabalhar, é indefensável que médicos não precisem provar que sabem cuidar de vidas.

Chegou a hora de parar de fingir que o problema não existe.

De parar de proteger instituições ruins.

E de exigir, com todas as letras:

Só deve atender a população quem provar, de forma objetiva, que sabe o mínimo necessário para ser médico.

Qualquer coisa diferente disso não é descuido: É irresponsabilidade institucional.

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Escrito por Gabriel Soares


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