O Brasil exposto pelo BBB prefere trocar de canal?

O BBB como espelho do Brasil que muita gente diz odiar – mas assiste todo dia.

Talvez o incômodo seja reconhecimento.

Todo ano é o mesmo ritual. As pessoas dizem que odeiam o BBB. Que não assistem. Que “não aguentam mais”. Que virou baixaria, militância, gente rasa, conflito fake. E mesmo assim sabem quem brigou, quem chorou, quem virou vilão, quem “está sendo cancelado”…

Acompanham pelo X/Twitter, pelo Instagram, pelo WhatsApp… “Não assistem” – mas sabem de tudo.

A verdade é que nunca assistiram tanto.

Se não fosse tão assistido, a Globo não faria novas edições.


(Curiosidade, consultei o catálogo da GloboAds. Para dar uma ideia: um comercial de 30” durante o BBB (nacional), custa entre R$ 500.000 e R$ 780.000 (depende do dia da semana a ser veiculado). O mesmo contrato, durante o “Jornal Nacional”, custa em média R$ 1.000.000. A surpresa do custo é o custo de tarde, durante o “Vale a Pena Ver de Novo”: custa R$ 210.000).


Ou seja, sim. Ainda há muito brasileiro assistindo o BBB. Mesmo negando.

Talvez o problema não seja o BBB. Talvez seja o reflexo.

As pessoas dizem que não assistem ao BBB porque ele incomoda… Por quê? Porque ele não mostra um recorte de Brasil ideal que era esperado ver. Ele mostra um Brasil possível. Gente que fala sem pensar, gente que fala o que não devia “da boca pra fora”. Gente que fala bonito e age mal – e vice-versa. Gente que erra tentando acertar e gente que acerta só pra ser aplaudida.

Um país inteiro dentro de uma casa, que não tem filtros suficientes pra esconder as contradições. A gente odeia porque se reconhece.

Reconhecimento incomoda demais.


É confortável criticar os participantes… Chamar de burros, rasos, manipuláveis. Difícil é admitir que eles falam o que muita gente fala no almoço de domingo, só que sem microfone.

Que reproduzem “preconceitos comuns”, inseguranças comuns, ambições comuns.


O BBB não cria personagens, ele expõe padrões já existentes. E esses padrões são difíceis de engolir quando não combinam com a imagem que a gente faz de si mesmo, e com a imagem que a sociedade projeta dela mesma: totalmente quebradiça.


O público gosta de apontar o dedo, mas não gosta de ver a própria mão se apontando.

Basta um paredão pra virar torcida organizada, guerra moral, linchamento digital.

O mesmo público que acusa o programa de ser tóxico, participa ativamente da toxicidade. E participa com prazer.


Existe também uma hipocrisia silenciosa na crítica que faço ao BBB. Dizem que o programa “emburrece o país”, como se ele fosse a causa - mas ele é o sintoma.

Como se o Brasil fosse um oásis de debates profundos interrompido por uma prova do líder.

O BBB não empobrece o discurso nacional. Ele já é empobrecido.

Ele tira o filtro. Mostrando como falamos quando achamos que ninguém importante está ouvindo. E ter uma câmera mostrando “o que estamos fazendo/falando” é muito incômodo. Fazer uma autocrítica, uma autorreflexão, demanda muita energia e muita concentração.

Demanda ainda muita paciência e quebra de paradigmas. Serão encontrados pontos a serem melhorados, e não será gostoso sentir isso.

Talvez por isso incomode tanto.

Porque ele desmonta a fantasia do brasileiro cordial, racional, politizado e consciente.

O que aparece ali é um retrato de país cansado, defensivo, performático, tentando desesperadamente estar do lado certo da história — mesmo sem saber direito qual é esse lado…

Um Brasil que aprende frases prontas e adere a ideias e grupos já criados, mas tropeça quando precisa fazer uma fala mais técnica; uma argumentação mais profunda.

E ainda assim, a gente assiste ao BBB. Não por curiosidade de ego apenas. Mas porque existe algo de íntimo nesse espelho na casa mais vigiada do Brasil.

A casa vigiada não mostra só quem está lá dentro. Ela revela quem está do lado de fora torcendo, odiando, e se projetando em alguém lá dentro.


O BBB é menos sobre os participantes e mais sobre o público que precisa deles pra se sentir melhor, mais certo, mais consciente… por isso o BBB sempre é sucesso de audiência, sempre foi, e sempre será.


PS.: “Brasil” também pode ser interpretado como um grupo social específico do qual você participa.


Rio de Janeiro,

25 de Janeiro de 2026.

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Escrito por Gabriel Soares


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